
Não resisti e fui logo na matriarca da família Dieuzeide. Maria de Las Mercedes Dieuzeide, 54, industriária, é argentina e conta um pouco das diferenças culturais entre os dois países e quando e porque mudou-se para cá.
- Quando e por que mudou-se da Argentina para o Brasil? Por que Vitória?
Mudei para Vitória em 1978 porque casei com um capixaba, a escolha por Vitória foi porque meu marido morava e trabalhava aqui.
- Assim que chegou sentiu algum choque cultural? Se não, o que mais chamou a atenção de diferente – culturalmente-?
Na realidade o que me resultou mais estranho foi a alimentação, não gostei do arroz com feijão, da mistura das duas coisas, mas fiquei encantada com a variedade de frutas e verduras, nunca tinha visto tantos sabores e cores. Na época, também, achei diferente o modo de vida, aqui havia uma maior liberdade nos costumes e, a pesar de que aqui ainda havia um regime militar no governo, não se vivia o clima opresivo que havia deixado na Argentina também na época governada por militares.
- Por que você acredita que as músicas, a política, etc. desse país, e dos outros países sul americanos não são tão divulgados aqui no Brasil?
Acho que é uma questão histórica, percebo que o Brasil, tal vez por ter ser o único país da América Latina que não fale espanhol, e por ter também uma riqueza cultural muito grande, sempre se “auto-abasteceu” e não se interessou por conhecer outras culturas próximas, que a pesar de muito diferentes, também são muito ricas. Históricamente também o sistema dominante nunca priorizou a aproximaçãoentre os países latinoamericanos.
- Muitos brasileiros quando chegam a Buenos Aires surpreendem -se com a boa educação argentina e com a beleza dos mesmos. Por que você acredita, então, que exista essa rivalidade tão grande entre os dois países?
Acredito que o futebol foi e é a semente dessa rivalidade, exarcebada pela mídia.
- Para você qual são as diferenças culturais fundamentais entre esses dois países?
Acho que a diferença fundamental é que o brasileiro, de um modo geral, é muito expansivo e se mostra de uma maneira muito natural, em tosos os aspectos, física e emocionalmente; o argentino é mais reservado, contido. Essa diferença se manifesta em todas as expressões culturais. Po outro lado, acho que o argentino é mais profundo, mais envolvido com a realidade que o cerca.
- Que mudanças você acredita que poderia haver para uma melhor difusão da cultura latina, em geral, no Brasil?
Ir além do futebol e do Carnaval. Acho que a mídia tem um papel fundamental nisso, dada a facilidade de comunicação que vivemos na atualidade, sinto que ainda há muito para mostrar, tanto no Brasil como na Argentina, sobre a real identidade de cada povo e suas manifestações. Deveria existir, também, um maior intercâmbio educacional.